Maria Ivone Vairinho e Poetas Amigos

Novembro 01 2011

Quis falar do Mondego e, na verdade,

É da foz do meu Tejo que vos falo

E cresce cá por dentro a voz que calo

E conta das saudades sem saudade

 

Solta-se o sonho oblíquo à claridade

E a linha de horizonte é um cavalo

Que não sei se lá está, se imaginá-lo

É lapso de memória ou se é vontade…

 

Galopa o meu poente à beira Tejo

Rumo a essas lonjuras que nem vejo

Por estarem tão além do meu futuro

 

Sobra-me, então, do sonho, o claro espanto

Do cavalo-solar que aqui levanto

E rasga, a ferro e fogo, um céu já escuro!

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 01.11.2011 – 16.00h

publicado por Maria João Brito de Sousa às 18:24

Outubro 27 2011

É por dentro das horas que desfio

O rosário das queixas que não faço

E esta fome de sol, que por cá passo,

Que me apodrece a vida e me faz frio

 

Sou abismo cavado em cada rio

Que rompe a terra mãe no seu abraço

E, do meu mais profundo, o puro traço

De quem, deixando-se ir, não desistiu

 

Mas, cada vez mais frio, dentro das horas

Que passam desmentindo outras demoras

Que o ciclo natural sempre despreza,

 

Se o leito do meu rio sabe que existe…

[se eu conquisto o direito de estar triste,

renego a minha afável natureza…]

 

 


 

Maria João Brito de Sousa – 26.10.2011 - 15.20h

publicado por Maria João Brito de Sousa às 02:01

Outubro 07 2011

 

Se a Cidade contasse os segredos

Das janelas fechadas dos dias

Quantos rostos e mãos não verias

Nas cortinas já gastas dos medos,

 

Quantos corpos em estranhos folguedos,

Quantas camas desfeitas, já frias,

Quantas mesas de pinho vazias

De uns pedaços de pão, mesmo azêdos?

 

Se a Cidade pudesse falar

E se erguida do chão, a gritar,

Rebentasse em protesto incontido

 

Levantando o seu punho no ar...

[... ah, Cidade que eu tento inventar,

nem eu própria sei dar-te um sentido!]


 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 05.10.2011 - 15.03h  

 

 

publicado por Maria João Brito de Sousa às 23:35

Setembro 29 2011

ALENTEJO

 

Alentejo das gentes castigadas,

Dos sobreiros reinando nas planuras

E das vozes dolentes, bem timbradas,

Que falam de alegrias, de amarguras…

 

Alentejo das searas espraiadas

Pl`o trigo inacabável das lonjuras,

Das casas pequeninas, bem caiadas,

Onde, à lareira, o povo queima agruras

 

Onde a gente se senta nos poiais

E esse pouco parece muito mais

Que o melhor que o mundo possa dar;

 

Vontade unida em vozes tão plurais

Faz-nos saber que não será demais

O que homens e mulheres não vão calar

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 04.09.2011 – 15.37h

 

 

NOTA - Foi feita, neste soneto, uma pequena correcção correspondente a uma falha métrica no segundo verso do primeiro terceto.

publicado por Maria João Brito de Sousa às 15:10

Setembro 04 2011
 
Parabéns, querido Amigo, por esta justíssima distinção
 
Maria Ivone Vairinho
Sócia Honorária da APP
 
 
 
publicado por mariaivonevairinho às 01:27

Agosto 21 2011

Quem te estendeu, minha terra,

Sobre algas, areia e mar

Como quem chega e descerra

Reposteiros de luar?

 

Quem te polvilhou desse ouro

Das searas nas planuras

Como se fosses tesouro

Que tombasse das alturas?

 

Quem te desenhou assim,

De um traço firme e seguro,

Florida como um jardim

Sob um céu de azul tão puro?

 

Nas praias, rios e montanhas

Que, mesmo pequena, abraças,

Sorriste à graça tamanha

De abraçar todas as raças

 

Quem te estendeu, terra minha,

Sobre algas, mar e areia,

Tanto trigo e tanta vinha

Nos braços de cada aldeia?

 

Quem de ouro te polvilhou

As planuras do regaço

Quando o sol te iluminou

Desde as lonjuras do espaço?

 

Nas aldeias, nas cidades

Que de ti foram nascendo

Desabrocham as vontades

Cansadas de ir-se escondendo

 

E, quando a fome chegar

Quando os seus braços se erguerem,

Quando a voz se lhes soltar

Para exigir quanto querem

 

Da minha terra dourada,

Toda rios, toda montanhas,

Virão vozes revoltadas

De gentes brancas, castanhas,

 

De gentes de tantas cores

Como as flores da minha terra

De novo empunhando as flores

Como os soldados na guerra!

 

Ó minha terra-promessa

Da pressa que trago em mim,

Não há poder que me impeça

De cantar-te até ao fim!

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 16.08.2011 – 13.45h

publicado por Maria João Brito de Sousa às 00:08

Agosto 10 2011

 

Sorrio por esta terra que deu vida

À poesia que enche as minhas veias

Onde esta alma marítima e rendida

Se me transmuta em espuma sobre areias

 

Sorrio por este mar, pela partida,

Pela insurgência destas marés cheias

Que, inevitavelmente, dão guarida

Às naus que em mim renascem como ideias

 

Sorrio por este céu de azul vestido,

Por cada rio de prata a desaguar

No estuário de sal que lhe é devido

 

Por este manto de ouro e de luar,

Por quanto dele em mim fizer sentido

No que eu, sorrindo assim, puder criar…

 

 

Maria João Brito de Sousa – 10.08.2011 – 12.15h

publicado por Maria João Brito de Sousa às 19:35

Agosto 06 2011

 

Passa por lá um rio feito de anseios,

De águas mansas, serenas, cristalinas,

Visitado por aves que, em gorjeios,

Vêm beijar as flores mais pequeninas,

 

Um córrego onde posso, sem receios,

Banhar-me como todas as meninas…

Minh`alma, pouco dada a devaneios,

É nele que encontra aspirações divinas…

 

Passaram tantos rios e só naquele

Soube o que era sentir, à flor da pele,

A estranha glória de não ter idade

 

O rio passou e eu já passei com ele

Mas nunca o esquecerei porque foi nele

Que achei, purinha, a minha identidade...

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 05.08.2011 – 15.13h

 

publicado por Maria João Brito de Sousa às 01:59

Agosto 01 2011

Somos de um tempo em mudança

Pois mudança sempre foi

Passar o tempo na esperança

De ir mudando o que mais dói

 

Horas, minutos, segundos,

Numa passagem constante

Terão gerado outros mundos

No culminar deste instante

 

Em torno do eixo estável

De um milagre de carbono

Somos o fruto improvável

De um universo sem dono

 

Se na vida se define

A mudança que aqui canto

E se viver nos redime,

Vida é mudança, portanto!


 

 

Maria João Brito de Sousa – 01.08.2011- 08.47h

publicado por Maria João Brito de Sousa às 11:48

Julho 22 2011

Fica tão triste a cor das madrugadas

Em que o sol se esqueceu de vir brilhar

E as nuvens plúmbeas descem, desoladas,

Sobre os últimos raios de luar…

 

Mas, em compensação, outras, ousadas,

Rompendo o escuro manto irão mostrar

O azul do céu às vidas ensonadas

Que agora mesmo acabam de acordar…

 

Há sempre um cravo aberto na janela

De cada madrugada que não esqueço

Nas horas de um porvir que se aproxima

 

E, se alguém se esquecer de olhar pr`a ela,

Eu escrevo outro poema, eu recomeço

No primeiro amanhã que nasça em rima…

 

 


 

Maria João Brito de Sousa

publicado por Maria João Brito de Sousa às 12:22

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